sábado, 14 de maio de 2011

"A gente vai contra a corrente, até não poder resistir"

Sabe o que seria realmente útil?
Que, quando duas pessoas se conhecessem, uma entregasse pra outra um manual sobre si com todas as instruções. Todos os significados, curiosidades, o que deve ou não ser feito ou dito... Enfim, uma cartilha de como agir e o que a vida e as relações significam praquela pessoa. Isso ia simplificar tanto tantas coisas. E iria evitar tantas outras.

Provavelmente só eu penso numa coisa descabida dessas. De fato nunca fui um primor nas relações interpessoais, fossem elas de amizade, familiar ou amorosa. Por isso um manual do que fazer e falar (ou não) iria ser um adianto precioso na minha vida.

Eu sinto de uma forma diferente. Sempre senti. Dando uma de Freud da meia-noite, minha infância influenciou demais a forma com que me relaciono hoje com tudo e com todos.
Meus pais trabalhavam. Eu estudava de manhã e minha irmã a tarde. Havia um quintal enorme na casa em que eu passei toda minha infância. Tinha o jardim da minha avó, uma bicicleta, brinquedos e meus discos da Eliana, Angélica, Xuxa, Trem da Alegria, Balão Mágico e afins.
Sempre brinquei sozinha, dancei sozinha, andei de bicicleta sozinha e destruí o jardim da minha avó sozinha (eu achava que cuidava das plantas, mas só fazia merda).

Quando se passa tanto tempo assim consigo mesmo você dá mais valor às palavras e aos sentimentos quando existe a presença de outra pessoa. Ou pelo menos foi isso que estar a maior parte do tempo sozinha provocou em mim. E você não vai gastá-los com qualquer um porque, né... Nunca tem ninguém. Ou seja, quando tem você não pode desperdiçar o momento. E nem desperdiçar palavras e sentimentos a toa.

E não tem sensação pior nesse mundo que a de quando você está expondo as palavras mais sinceras pra uma pessoa que é realmente importante pra você e ela não percebe o significado de tudo aquilo. Parece que o coração vai se partir em mil pedaços tamanha a frustração.
Ou então quando você e outra pessoa aparentemente falam uma pra outra de um mesmo sentimento, ou de sentimentos que se aproximem, mas numa escala de 0 a 10 você sente no 10 e a pessoa no 1, só pra não falar que não sente nada. Desconcertante.

- Eu amo você.
- :)

Como? Como pode isso?
As palavras mais bonitas serem usadas e a resposta ser o sinal de dois pontos e parênteses fechado? Me explica como pode isso?
Tudo bem que hoje em dia "eu te amo" está mais obsoleto do que aquele bom dia que você dá pra vizinha que odeia do fundo da alma, e que só diz porque recebeu educação suficiente em casa. Mas pra mim essa obsolescência não existe. Não quando essas palavras saem da minha boca. E no fim das contas esse é o ponto. Eu sei o tamanho da sinceridade do que sinto, as outras pessoas não. Tem coisa mais complicada que isso?

Me sinto perdida nesse planeta. Tantas coisas são faladas sem motivo nenhum, sem verdade nenhuma.
E não falo sobre frivolidades do dia a dia. Falo de coisas sérias, de sentimentos. Algo do tipo "vou falar o que Fulano quer ouvir pra ele calar a boca logo e eu poder ler meu jornal na santa paz de Deus" e aí vai lá e fala. Assim, fácil, fácil. Sem culpa e sem nada. Sem nem pensar, eu acho.

Me sinto tão perdida que chego a me achar idiota.
Dou tanta importância ao que ninguém dá. A vida não iria fluir muito mais fácil se eu simplesmente não ligasse pra esse tipo de besteira? Se eu não ficasse horas e horas pensando em como alguém me machucou com um punhado de palavras e sequer percebeu?

Claro que há de se considerar o fato de que por eu ter sido sempre tão sozinha e não fazer questão da presença de outra(s) pessoa(s), a não ser que essa pessoa chame minha atenção, só contribuiu no aumento dessa sensação de ter sido largada no meio de seres de outra espécie, num outro planeta de uma galáxia tão, tão distante.
No fundo eu sei que fico tentando decifrar o outro como se ele fosse um cubo mágico quando na verdade é um quebra-cabeça de no máximo 30 peças. Mas é como quando se está fazendo uma prova de matemática e essa não é sua melhor matéria, sabe? A pergunta é "quanto é 1+1?" mas daí você olha, olha e pensa que não deve ser simples daquele jeito. Tem uma pegadinha ali. O professor é um mal amado. E daí você começa a calcular a raiz quadrada do quadrado dos catetos e soma com uma hipotenusa que sabe lá Deus de onde surgiu. E aí você já errou a fórmula que nem era pra ter sido utilizada e, pronto, vai repetir de ano pra deixar de ser otário.

E é exatamente assim que vivo minha vida. Dá zero pra mim.

Esse texto ficou empoeirando no HD do meu computador durante quatro dias ou mais. Pensei: Pra que vou publicar essa porcaria, ninguém vai me entender mesmo.
Mas a vontade de extravasar sempre predomina. E o blog é meu, né? Se não quiser ler, escuta uma da Janis pra passar o tempo:

32 comentários:

Dama de Cinzas disse...

Eu entendi muito bem!

Acho que tem pessoas que tem mais facilidade de se relacionar porque tudo que fica na superfície, então algumas palavras bonitas, um sorriso bastam.

Já outras, como vc e eu, pensam demais querem saber o porquê das reações das pessoas, querem saber como funciona dentro do ser humano e acaba se isolando por nunca entender nada.

Bem vinda ao grupo dos "solitários", metade por opção, metade por um tanto de impossibilidade de compreender o ser humano.

Beijocas

Pedro Ricelly disse...

Nunca li um texto seu assim. Tô surpreso. Pra você ver o quanto seria útil um manual das pessoas ...

Concordo que o "eu te amo" esteja banalizado, nunca disse isso pra ninguém, mas quando disseram pra mim, fiquei atordoado e respondi com :)

Sou canalha?

EU SOU NEGUINHA disse...

risos...vc deve ser do mesmo mundo que eu...
Nega de Kpax..risos
Beijos em ti

T. disse...

Sou do tipo que em geral vem aqui, lê e não comenta... Mas não consegui resistir ao impulso de falar alguma coisa nesse texto. Porque eu entendo EXATAMENTE o que você quer dizer. Sou igual. Até mesmo no ponto de comparar as relações com provas de matemática e pensar em coisas irreais como que cada pessoa ter o próprio manual de instruções. Acho que seria incrivelmente útil.

Deve ser mal de quem cresce sozinho... Mas é legal saber que mais alguém se sente assim.

girafas disse...

cresci assim e sou assim tbm. Obrigada por compartilhar, fico feliz por não ser a única no mundo.

katy disse...

oi nathália, fase ruim né? mas, é só isso, uma fase. não é o resto da sua vida. sei muito bem como é se sentir assim. na verdade acho que todo mundo sabe ou vai descobrir um dia. eu tenho 1 irmão, mas nunca fomos amigos. hoje minhas relações são bem limitadas, e às vezes, por falta de experiência ou sei lá o que, eixo as pessoas erradas entrarem na minha vida. e quando elas saem, porque elas tem que sair, é uma dor desgraçada. já disse "eu te amo" sem ouvir nada depois. já ouvi "eu te amo" sem dizer nada depois. as pessoas não tem manual de instruções, e se tivessem tudo ia ser muito chato. um dia, vc vai ouvir e dizer "eu t amo" e vai se sentir a mulher mais feliz do mundo. não tem manual que ensine isso. não tem nada que pague por isso. bjs

Filipe disse...

Você tem uma capacidade incrível de nos prender na leitura até o final do texto, e uma capacidade ainda melhor de nos surpreender em cada nova postagem.

Também não conhecia este seu lado diferenciado no blog e, mesmo não sendo igual a vc, te compreendo muito.

Vem K, me dá um abraço o/
(não? sem problemas, também me abraço sozinho rssss) =*

Stephanie C. de Mello disse...

É foda.
Só isso que eu posso dizer pra você. =/

*Raíssa disse...

Vamos fundar um clube eu, você e a Dama de Cinzas? Sinto as mesmas coisas que vocês e te entendo perfeitamente. Sou igual. Quase sempre brincava sozinha também. Me acostumei a estar sozinha e, por isso, dou mais valor à relações humanas, sejam elas quais forem. Mas percebo que as pessoas tratam umas às outras como descartáveis. Cansou, enjoou, joga fora; e sem explicações muitas vezes. Não entendo isso! Fico revoltada!

Como você bem disse: "Eu sei o tamanho da sinceridade do que sinto, as outras pessoas não. Tem coisa mais complicada que isso?"
Me sinto tão perdida quanto você neste planeta. Não sei porque fui jogada aqui se não tenho nada a ver com o terráqueos que aqui habitam. Tem uma hora que enche o saco lidar com esse monte de gente estranha, falsa, hipócrita e mentirosa. Eu já enchi.

Beijos!

Cin disse...

Oi Nath, qto tempo, é a Cin do "Segredos de Liquidificador" lembra de mim? Estou passando pra contar que voltei a blogar, fiz um blog com assuntos relacioanados a atual fase da minha vida: a maternidade. Vim te convidar pra conhecer. Vou adorar sua visita. O end é:http://maenualdeinstrucoes.blogspot.com Bjinhos!

Trizarro disse...

manuais iriam estragar tudo... não se conhece alguém como se compra uma torradeira nas casas bahia... A graça está exatamente em se desapontar ou, principalmente em se surpreender. De qualquer forma é fácil se pensar assim quando se está puto, então dá pra te entender...
um beijo

Gisa disse...

Nao acho que voce seja maluca, eu tambem sou assim. Dificulto tudo, sem necessidade. Valorizo demais as palavras das pessoas, acredito demais e quando alguem me faz mal, sempre vem a pergunta: "Por que os seres humanos fazem isso?"
Ao contrario de voce, tive uma infancia cheia... mas uma adolescencia vazia, nao por falta de pessoas, mas por falta de pessoas que valessem a pena. Sei lah, acho que sempre tive um tipo de Super Ego, sei lah... achava ( e ainda acho) que nao sao todas as pessoas que merecem respeito, amor, etc. Mas no fundo, nao acho que sou convecida (ou metida, ou prepotente)... acho soh que sou seletiva. Dai acabo ficando sozinha. Sei lah, antes soh que mal acompanhado...
Bejao

CLARISSA disse...

Oi! Nossa fiquei surpreendida com seu texto, consegui me ver em muitas das tuas frases, e nossa, o amigo que me indicou o blog, saberia mesmo q eu me "acharia aqui".

Marcou em mim:

"Me sinto perdida nesse planeta. Tantas coisas são faladas sem motivo nenhum, sem verdade nenhuma".

"E não tem sensação pior nesse mundo que a de quando você está expondo as palavras mais sinceras pra uma pessoa que é realmente importante pra você e ela não percebe o significado de tudo aquilo"

Beijão ;*

e brigada pelo texto

::::FER:::: disse...

olá , primeiro qmei o novo visu do blog, segundo eu fiquei sumido mas vou oler td que perdi por aki, e sobre o texto amiga essa músiquinha contribui muito pra essas coisas, nossa bota um cold-play ai vai da uma animadinah:)

:)FER(:

Ana Laura disse...

Li, entendi e escutei a da Janis.

Não se sinta sozinha porque não é a única nesse clubinho que ainda leva o significado das palavras ao pé da letra.

Ane disse...

Olá!

Eu era do blog Pensaela, mas agora mudei: http://pedacosdela.blogspot.com

Obrigada!

Flávia disse...

Sei tão bem como você se sente '-'
E ler seu texto ao som de Janis ficou lindo. Essa mulher me mata <3

Menina da Imprensa disse...

Desacredite, ria, ou pasme, como quiser...mas eu vivi exatamente a mesma coisa e recebi os mesmos dois pontos com parênteses fechado.
A infância sozinha faz realmente a gente supervalorizar algumas pessoas, e sinto que esa supervalorização extrapola quando o sexo é oposto...ainda que não console, você não é a única a passar por isso, então na dúvida dá zero pra mim também!

Juliana Caulo disse...

Primeiro quero dizer que ADOREIIII SEU BLOG !!! *O*
Paarabéns por ele , muito lindinho . Es sobre texto... gostei também! E nunca deixe um texto de lado.. às vezes os textos nos trazem surpresas

Ela disse...

Cara, passei e passo grande partedo meu tempo me martirizandocom esses questionamentos. O meu eu é superfície, acho que só meus gatos me entendem.

Forever Alone me define e eu não tô nem ai.


Bjuss

Pitty que Pariu disse...

Concordo com o manual. É de extrema necessidade. Se bem que tem gente que no momento de "se conhecer" fala tanto de si que irrita.
Curti a sua análise Freudiana. Eu sempre tive muita gente ao redor, tudo meu era de todo mundo, e ainda assim dou muito valor às companhias. Mas sou mesmo excessivamente seletiva.
Sobre o "eu te amo", as vezes prefiro que o outro sinta a eu ter que convencê-lo com uma frase.
Que bom que o seu texto foi promovido a post, pois ele não merecia ser fadado à gaveta.

Insolente disse...

Sempre fiz isso com matemática e tenho a impressão que faço isso no relacionamento com os outros tb. Sabe como é, o inferno (e o paraíso) são os outros.

Bill Falcão disse...

O bom de seus textos é que não tem nada datado, são atemporais. Mesmo que você mude, o que foi escrito permanece acima dos acontecimentos, tem vida própria. Como toda obra bem feita.
Mas, se é zero pra você, é zero pra mim também. E observe que, ao contrário do que você pensava, os comentários acima garantem ter entendido o que você sente.
Eu gostaria de não estar longe.
Bjooo!!

Deysiane disse...

Se você achou que deveria publicar esse texto, por que nao? Ta que tem pessoas que tem dificuldades em entender outras pessoas (principalmente quando são textos né?) mas isso não é meu caso.
Eu sei que é algo difícil quando você diz palavras lindas e sensíveis para uma pessoa tão querida e ela simplesmente da um sorriso, sei como é, mas se tivesse algum manual de como tratar e se expressar com aquela pessoa, simplesmente ficaria tudo muito mecânico, sabe? você falaria algo e simplesmente você ia saber o que aquela pessoa ia falar como resposta.
Beijos *-*

Lih ~ disse...

EU sou relacionável, faço amizade fácil, converso com todo mundo... Mas relacionamento amoroso seeempre foi uma meleca pra mim. Não se sinta sozinha, sério...
Muita gente também tem essa dificuldade e o pior, não consegue nem quando está entregue, demonstrar... se é que você me entende.

Sobre os dois pontos com parênteses fechado... Eu já recebi um "Ok". Foi triste, mesmo.

Então te entendo perfeeeitamente.

Adorei o texto, então resolvi comentar!

Jeronymo Artur disse...

posso assinar aí embaixo?

mas eu tenho uma boa notícia: o ônibus espacial de volta pro planeta dos sentimentais-solitários-que-não-gostam-de-banalizar-sentimentos ainda tem uma poltrona. tá afim? :)

Jeronymo Artur disse...

só acho que um manual acabaria com todo o encanto de se surpreender com o outro. por que, apesar dos contras, os prós são uma delícia, não acha?
.
mas eu tenho uma boa notícia: o ônibus espacial de volta pro planeta dos sentimentais-solitários-que-não-gostam-de-banalizar-sentimentos ainda tem uma poltrona. tá afim? :)

Marcela Castro disse...

Nossa q texto!!! Realmente seria mais fácil se cada uma andasse com seu manual de instruções msm!!! Mas um dia acaba aparecendo uma pessoa q acaba te entendendo como se tivesse lido seu manual completo!!!

Xilimbim disse...

Nossa que saudades de vc sua maluca....
É tua irmã gêmea... Carla (portugal)
Poxa, me abandonou..
Agora tou com outro nick....
Que bom que vc voltou.. nossa ganhei meu ano....

Geminiana Doce disse...

Você como sempre afiadíssima. Feliz Dois mil e doce, gatona.
Passei aqui para te dizer que a partir de hoje usarei esse blog:
http://atrizencenando.blogspot.com/ se puder ir me visitar qualquer dia eu agradeço. Beijos e saudades de papear contigo.

onilsepol disse...

Manual de pessoas.
Bastante improvável, pois elas mudam como a lua.
Gostaria de escrever como você.
Simples e profundo ao mesmo tempo.
Já;a trilha sonora não poderia ser mais adequada.
Parabéns!
Convido-a para conhecer meu blog:
onilsepol.blogspot.com.
Não ótimo assim como o seu.
mas pode ter algo que sirva.
Abraço.

onilsepol.

Amanda Pinto disse...

Acho que mesmo com manual de instruções ia aparecer alguém disposto a roubar seu tempo, sentimento, coração, alma e depois te machucar com algo que esqueceu de grifar no manual que recebeu...

O post é antigo, teu estado de espírito é outro, mas o meu atual se encaixa exatamente aqui.

:*

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